Texto adaptado de Martha Medeiros
Como se todas as janelas tivessem se fechado às três da tarde num dia de sol.
Como se a praia ficasse vazia.Como um programa de televisão que sai do ar e ninguém desliga o aparelho,
fica ali o barulho a madrugada inteira, o chiado, a falta de imagem, uma luz incômoda no escuro.
Como estar isolada num país asiático, onde ninguém fala sua língua, onde ninguém o enxerga.
Nunca me senti tão desamparada no meu desconhecimento.
Quem pode explicar o que me acontece dentro?
Eu tenho que responder às minhas próprias perguntas.
Eu tenho que ser serena para me aplacar minha própria demência.
E tenho que ser discreta para me receber em confiança.
E tenho que ser lógica para entender minha própria confusão.
Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto.
A carência. A saudade. A mágoa...
Talvez eu não seja adulta suficiente para brincar tão longe do meu pátio,
do meu quarto, das minhas bonecas. Onde é que eu estava com a cabeça,
de acreditar em contos de fadas, de achar que a gente manda no que sente
e que bastaria apertar o botão e as luzes apagariam e eu retornaria minha vida satisfatória,
sem seqüelas, sem registro de ocorrência?
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